Portugal e Dinamarca: O que revela o Relatório PCID sobre Investigação e Inovação
Portugal construiu, ao longo das últimas décadas, uma base científica significativa. No entanto, transformar essa capacidade científica em inovação, valor económico e impacto mais amplo na sociedade continua a representar um desafio diferente.
Esta é a questão central explorada no Relatório Comparativo PCID, desenvolvido pela SPOT Nordic no âmbito do Programa Portugal–Dinamarca: Ciência, Inovação e Diplomacia (PCID), com o apoio da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas (DGACCP) do Ministério dos Negócios Estrangeiros português.
O relatório apresenta uma comparação, sustentada em evidência, dos sistemas de investigação e inovação de Portugal e da Dinamarca, combinando indicadores quantitativos internacionais, documentação institucional e programática e entrevistas com profissionais e decisores políticos dos dois países.
Portugal e a Dinamarca operam no mesmo quadro europeu mais amplo de investigação e inovação, incluindo o Horizonte Europa e o Espaço Europeu da Investigação. No entanto, apresentam resultados de inovação significativamente diferentes.
A comparação parte, assim, de uma questão central: porque é que a Dinamarca transforma investigação e conhecimento em resultados de inovação de forma mais consistente, apesar de Portugal ter desenvolvido uma capacidade científica significativa?
Os resultados sugerem que não existe uma única explicação. Pelo contrário, a diferença resulta da interação entre financiamento, instituições, carreiras de investigação, envolvimento do setor privado, transferência de tecnologia e continuidade do apoio disponível ao longo do percurso entre a investigação e o mercado.
A diferença ao nível da inovação é superior à diferença na capacidade de investigação
Uma das principais conclusões do relatório é que a diferença entre Portugal e a Dinamarca se torna consideravelmente maior quando passamos da capacidade de investigação para os resultados de inovação.
Portugal desenvolveu uma capacidade científica significativa. No entanto, a vantagem da Dinamarca torna-se mais evidente nas fases posteriores do processo de inovação, particularmente em áreas como patentes, co-publicações entre os setores público e privado e exportações de serviços intensivos em conhecimento.
Esta distinção é importante porque permite alargar a discussão para além da produção científica.
O desafio não passa apenas por produzir mais conhecimento, mas também pela capacidade dos sistemas de investigação para ligar eficazmente esse conhecimento às empresas, ao investimento, ao desenvolvimento tecnológico e aos mercados.
Mecanismos semelhantes, diferentes formas de os colocar em prática
A comparação mostra também que a diferença entre os dois países não resulta simplesmente da existência ou ausência de mecanismos de apoio à inovação.
Tanto Portugal como a Dinamarca dispõem de mecanismos institucionais de apoio à investigação, transferência de conhecimento e comercialização.
A diferença reside sobretudo na forma como esses mecanismos são organizados, financiados, coordenados e mantidos ao longo do tempo.
Esta é uma das conclusões mais abrangentes do relatório: a arquitetura institucional é importante, mas também o é a forma como as instituições interagem na prática.
As carreiras de investigação estabelecem ligações diferentes com a economia
Outra diferença significativa está relacionada com o percurso do talento científico para além do meio académico.
A Dinamarca combina um modelo de doutoramento baseado numa relação de emprego com uma maior capacidade de absorção de investigadores pelo setor empresarial. Portugal, por sua vez, continua a enfrentar maiores desafios na progressão das carreiras de investigação e na criação de oportunidades para capital humano científico altamente qualificado fora do meio académico.
A comparação destaca, assim, a importância não só de formar investigadores, mas também de criar um ecossistema capaz de absorver as suas competências em universidades, organizações de investigação, empresas e outros setores.
O financiamento não depende apenas do montante investido
O relatório identifica também uma diferença estrutural na arquitetura do financiamento da investigação e inovação.
A Dinamarca combina um investimento mais elevado em I&D com uma combinação mais diversificada de financiamento público, empresarial, europeu e proveniente de fundações privadas.
Portugal, apesar do apoio público significativo à investigação e à I&D empresarial, permanece mais dependente de recursos públicos nacionais e europeus.
Particularmente relevante é o papel desempenhado pelas grandes fundações industriais dinamarquesas.
A sua dimensão e ligação a grandes empresas proporcionam uma fonte adicional de financiamento de longo prazo para investigação e inovação, para a qual o relatório não identifica um equivalente direto no sistema português.
O percurso entre a investigação e o mercado necessita de continuidade
Outra das conclusões diz respeito ao que acontece entre a descoberta científica e a sua adoção bem-sucedida pelo mercado.
Ambos os países dispõem de mecanismos que abrangem grande parte do percurso entre a investigação e o mercado. No entanto, a evidência recolhida para o relatório aponta para maiores descontinuidades em Portugal entre a investigação, as fases iniciais de desenvolvimento comercial, a entrada no mercado e o crescimento subsequente.
Isto sugere que a criação de programas ou instrumentos de apoio individuais não é, por si só, suficiente.
Particularmente importante parece ser a continuidade entre as diferentes etapas do percurso de inovação e a capacidade de investigadores, empreendedores e empresas avançarem de uma fase para outra sem encontrarem repetidamente lacunas nos mecanismos de apoio.
A previsibilidade e a confiança institucional são importantes
Nem todas as diferenças identificadas pelo relatório podem ser traduzidas em números relativos ao financiamento ou em indicadores de inovação.
As entrevistas realizadas no âmbito do estudo destacaram repetidamente o papel da previsibilidade administrativa e da confiança institucional.
As diferenças ao nível da carga administrativa, dos processos de tomada de decisão e da implementação podem influenciar a capacidade das organizações e dos investigadores para utilizarem eficazmente programas de financiamento e estruturas de apoio, mesmo quando existem mecanismos formais comparáveis.
Esta conclusão reforça uma mensagem transversal à comparação: a forma como um sistema funciona pode ser tão importante como as estruturas que formalmente o constituem.
Nem todas as comparações apontam na mesma direção
O relatório não apresenta a Dinamarca como um modelo a ser diretamente replicado por Portugal.
A evidência também não demonstra uma vantagem uniforme da Dinamarca em todas as dimensões analisadas.
Portugal apresenta um desempenho comparativamente forte em algumas áreas relacionadas com a colaboração das PME e a introdução comercial da inovação, enquanto a vantagem da Dinamarca é particularmente evidente em atividades intensivas em investigação, tecnologia e conhecimento.
A comparação revela, portanto, diferentes perfis de inovação, em vez de uma simples distinção entre um sistema bem-sucedido e outro menos bem-sucedido.
É também por esta razão que o relatório não identifica uma única política ou instituição capaz de explicar a diferença nos resultados de inovação. Pelo contrário, a evidência aponta para a interação entre múltiplos fatores estruturais e institucionais.
Da evidência comparativa à cooperação Portugal–Dinamarca
Compreender estas diferenças é apenas uma das componentes do Programa PCID.
O relatório foi desenvolvido com o objetivo de criar uma base de evidência para identificar oportunidades concretas de cooperação bilateral entre Portugal e a Dinamarca.
A análise destaca áreas como a mobilidade de investigadores e doutorandos, transferência de tecnologia e licenciamento, cooperação entre fundações e filantropia, e saúde e ciências da vida como oportunidades particularmente relevantes para reforçar as ligações existentes entre os dois ecossistemas.
Em vez de considerar a relação Portugal–Dinamarca como pouco desenvolvida, estas áreas procuram contribuir para aprofundar e reequilibrar uma relação científica já significativa, criando simultaneamente ligações mais fortes entre investigação, inovação, instituições e indústria.
O Relatório Comparativo PCID é o primeiro de três resultados interligados do Programa, juntamente com um policy brief que traduz a evidência em recomendações específicas e um diálogo institucional entre stakeholders portugueses e dinamarqueses.
Em conjunto, estes elementos refletem o objetivo mais amplo do PCID: passar da evidência comparativa para uma cooperação mais estruturada entre Portugal e a Dinamarca nas áreas da investigação, inovação e diplomacia científica.
📖 Leia o Relatório Comparativo PCID completo:





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