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Repensar a Doença de Alzheimer: O Porquê da Doença Não Começar No Cérebro

César Cunha
César Cunha

Crónica do Investigador | Durante décadas, a comunidade científica olhou para a doença de Alzheimer através de um prisma relativamente estreito: como uma patologia que começa e termina no cérebro. Quando pensamos em Alzheimer, pensamos inevitavelmente em neurónios, placas amiloides e perda de memória. Pensamos no sistema nervoso central como palco exclusivo da doença.


Mas, e se estivermos a procurar no sítio errado?

É precisamente essa a questão que orienta o trabalho de César Cunha, investigador de doutoramento especializado em genómica humana no Novo Nordisk Foundation Center for Basic Metabolic Research, na Universidade de Copenhaga, e Associate Research Fellow no Broad Institute of MIT e Harvard, em Boston. O percurso de César não começou na neurociência. Com formação em bioquímica e biotecnologia ambiental, foi o fascínio por sistemas biológicos complexos que o levou, gradualmente, a explorar os mecanismos genéticos que moldam doenças humanas. Hoje, através de dois estudos inovadores em preprint, está a contribuir para uma mudança profunda na forma como entendemos a doença de Alzheimer.


Um Problema de Corpo Inteiro, Não Apenas Uma Doença do Cérebro


Recorrendo a ferramentas genómicas avançadas e modelos de machine learning, César e os seus colegas mapearam os determinantes genéticos da doença de Alzheimer em dezenas de tecidos humanos, múltiplas regiões cerebrais e diferentes tipos celulares.


Maersk Tower - Novo Nordisk Foundation Center for Basic Metabolic Research, University of Copenhagen
Maersk Tower - Novo Nordisk Foundation Center for Basic Metabolic Research, University of Copenhagen

O resultado foi inesperado. O risco genético associado à doença não parece estar predominantemente enriquecido no cérebro. Pelo contrário, os sinais mais robustos emergem de tecidos e sistemas periféricos, especialmente do sistema imunitário e do metabolismo.


A analogia utilizada pelo investigador ajuda a clarificar esta ideia: a obesidade manifesta-se no excesso de gordura corporal, mas as suas raízes genéticas residem em mecanismos cerebrais que regulam a fome e o balanço energético. De forma semelhante, embora a patologia final do Alzheimer se manifeste no cérebro, as suas origens genéticas poderão estar na forma como o sistema imunitário periférico envelhece e responde ao longo da vida. A investigação identificou, inclusive, uma possível “janela crítica de suscetibilidade” entre os 55 e os 60 anos, período em que a ativação imunitária periférica poderá preparar o terreno para o declínio cognitivo futuro.


Obesidade, Diabetes e uma Assunção Invertida

A investigação foi ainda mais longe ao explorar a ligação entre condições cardiometabólicas e o risco de Alzheimer. Os dados revelaram um padrão influenciado pelo sexo biológico:

  • Nas mulheres, um índice de massa corporal mais elevado surge como fator de risco mais relevante.

  • Nos homens, é a diabetes tipo 2 que assume maior peso na predisposição genética.


Mas talvez o resultado mais surpreendente tenha sido outro: variantes genéticas associadas a maior risco de Alzheimer correlacionam-se com predisposição crónica para níveis baixos de pressão arterial e de glicose no sangue, invertendo pressupostos médicos amplamente estabelecidos. Estas descobertas desafiam não apenas modelos biológicos, mas também estratégias preventivas e clínicas atualmente em vigor.


Uma Nova Esperança para o Tratamento

Distinguir onde uma doença termina de onde ela começa é crucial para a travar.


Se o Alzheimer for, como estes dados sugerem, uma doença sistémica com raízes periféricas, então o foco exclusivo no cérebro poderá estar a limitar as nossas estratégias terapêuticas. Ao deslocar a atenção científica para fora do sistema nervoso central, abrem-se novas possibilidades de intervenção precoce, potencialmente décadas antes da manifestação clínica. Esta mudança de paradigma não elimina a importância da neurodegeneração. Mas redefine-a como consequência, não necessariamente como origem.


Broad Institute of MIT and Harvard, Boston
Broad Institute of MIT and Harvard, Boston

Alzheimer na Sociedade: Tornar o Invisível, Visível

Para além da dimensão biomédica, o trabalho de César Cunha, membro associado da SPOT Nordic, lança luz sobre um problema social persistente: a incompreensão generalizada da doença de Alzheimer.


Demasiadas vezes, os primeiros sinais são desvalorizados como “parte normal do envelhecimento”. Este equívoco retira urgência à intervenção precoce e perpetua o estigma. A doença não é simplesmente esquecimento ocasional; é uma falha sistémica progressiva, com impacto devastador no doente, na família e nos sistemas públicos de saúde.


Após o diagnóstico, muitos doentes tornam-se socialmente invisíveis. O peso do acompanhamento recai silenciosamente sobre cuidadores e familiares, frequentemente sem suporte adequado. A doença é tratada como uma tragédia privada, quando na realidade representa um desafio estrutural numa sociedade progressivamente envelhecida.

Avanços genómicos são marcos científicos fundamentais. Mas não podem prosperar isoladamente. Antes de implementar estratégias de prevenção e tratamento abrangentes, é necessária uma transformação na literacia pública e na consciência coletiva sobre a complexidade e impacto do Alzheimer. Só tornando o invisível visível poderemos criar a base social necessária para que as soluções clínicas do futuro tenham verdadeiro impacto.


Referências:

Cunha, C., [Authors], Claussnitzer, M., Loos, R., Kilpeläinen, T. (2026). Genomic partitioning of Alzheimer’s disease in humans reveals non-CNS etiology. medRxiv.

Cunha, C., [Authors], Kilpeläinen, T., Loos, R. (2026). Genomics link obesity and type 2 diabetes to Alzheimer’s disease to unveil novel biological insights. medRxiv.

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